Pronto, a partir de agora já não vai haver desculpas para os patrões. Com este novo pacote de legislação laboral, as empresas, que, como todos sabemos, já não tinham nenhuma dificuldade em punir ou despedir trabalhadores, passam a poder fazer praticamente tudo o que lhes der na real gana. Quanto aos trabalhadores, só têm que agradecer enquanto ainda tiverem trabalho, porque a tendência é para ele se ir tornando um bem cada vez mais escasso.
Não deixa de ser irónico o argumento apresentado para este ataque brutal aos direitos de quem ainda tem trabalho: a percepção que os nossos "parceiros europeus" têm da nossa legislação laboral. Sim, apesar de todos sabermos que não é por causa das leis que as nossas empresas não conseguem ser competitivas, os nossos parceiros, que nunca antes desta crise tinham olhado para nós e não conhecem nada deste País, acham que sim. E acham que sim porque não sabem que as leis em Portugal são feitas com montes de armadilhas, para que seja possível aos mais espertos (leia-se mais abonados) não as cumprirem. E porque não encontram outra explicação para o colossal fracasso deste jardim à beira-mar plantado, apesar dos milhões que recebemos desde a nossa entrada no "clube dos ricos".
Pois eu digo que é preciso ir mais fundo. A destruição do nosso tecido produtivo (agricultura, pescas, indústria...) deve-se muito à corrupção no aproveitamento indevido dos subsídios europeus, mas também a uma clara opção de quem agora advoga a necessidade de retornarmos ao mar e à agricultura. Porque nos foi dito, durante anos, que o nosso futuro seria o turismo e os serviços. Essa gente tem nome. Um deles, o principal, até é presidente da república.
Uma coisa é certa: os trabalhadores portugueses são unanimemente considerados bons em todos (e muitos são) os países do mundo em que vivem e labutam diariamente. Não será, portanto, por eles que as empresas não são competitivas e a economia está estagnada há mais de uma década. Nos primeiros anos da CEE, só crescemos porque entraram muitos milhões e se fizeram muitas obras públicas e muitas casas. Esse tempo acabou e os empresários não quiseram ou não souberam percebê-lo a tempo. Acabaram os fundos europeus e acabou a capacidade de os cidadãos portugueses se endividarem para adquirir casa. Toda a gente sabia que este dia chegaria um dia, mas é a tal história: enquanto um negócio dá, investe-se nele. Depois, quem cá ficar que feche a porta...
É evidente (mas para que todos percebam ainda vai ser preciso afundarmo-nos mais um pouco) que estas medidas também vão fracassar, porque o nosso verdadeiro problema é falta de organização e inovação na maioria das empresas. Que adianta termos cada vez mais licenciados, se os empresários não os querem, ou se os querem é apenas porque lhes pagam ordenados de miséria e não os sabem enquadrar? Toda a gente já ouviu empresários (e trabalhadores) dizerem que "este engenheirolas tirou um curso mas não percebe nada disto". Mas o mesmo engenheirolas, numa empresa estrangeira, afinal percebe. Outra boca habitual: "oh pá, sempre trabalhei assim, não és tu quem me vem agora dizer o que hei-de fazer".
As nossas empresas têm que começar a ser geridas por quem sabe e não simplesmente pelos donos. Porque a verdade é que a maioria dos nossos empresários continua a ter baixas qualificações e recusa-se ou é incapaz de evoluir ou de delegar funções, porque "na minha empresa mando eu, porque eu é que a criei, com muito suor e muito trabalho". A maioria das empresas vai-se abaixo a partir da segunda ou terceira geração, simplesmente porque não evolui. Essas empresas nasceram e cresceram à custa do muito trabalho dos seus donos (e não só...), mas chegam a um ponto em que é preciso mais qualquer coisa, em termos estratégicos e de gestão. A par disto, torna-se insustentável a descapitalização e o endividamento galopantes decorrentes do nível de vida exageradamente elevado das respectivas famílias, nomeadamente com aquisição de carros topo de gama, férias no estrangeiro e casas luxuosas.
Conclusão: ao pé deste "acordo" (acho piada ao termo, se considerarmos que, de todos os membros da pomposamente chamada "concertação social", apenas a UGT esteve em representação dos trabalhadores, ou melhor, de uma pequena parte dos trabalhadores), ao pé deste acordo, dizia, a meia hora a mais não passava de uma brincadeira de crianças. Era clarissimamente muito menos penosa para os trabalhadores. Mas pelo menos assim não resta mais nenhuma desculpa para a falta de competitividade das nossas empresas. De qualquer forma, se for preciso (como vai), daqui por algum tempo, ainda se pode acabar por aumentar não meia, mas uma ou duas horas diárias e/ou baixar os salários, por exemplo, com a eliminação dos subsídios de férias e de Natal. Se entretanto as pessoas não começarem a morrer de fome, pode ser que então, finalmente, as nossas empresas se tornem competitivas. Afinal, não é assim que a China o está a conseguir?
Madrugada de 25 de Abril de 74, parada da Escola Prática de Cavalaria, em Santarém: "Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!" – Salgueiro Maia. Todos os 240 homens formaram de imediato.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário