Os noticiários voltaram nestes dias a chamar-nos a atenção para a vergonha nacional que são os lares de terceira idade sem condições - só este ano, a Segurança Social já fechou mais de setenta. Numa das reportagens, os utentes eram sujeitos a toda a espécie de patifarias, como ser molhados com uma mangueira no quintal, comer um pão a meias(!), ficar amontoados numa cave durante o dia e ter que subir à noite dois andares para ir para os quartos, sob pena de ter que ficar cá em baixo num sofá... Muitos queixaram-se com fome, frio, falta de higiene ou medicamentos trocados. Tudo condimentado com maus tratos q.b., nalguns casos, mesmo, agressões físicas.
Algumas pessoas, que já o terão tentado fazer, afirmam que a forma mais rápida de fechar um lar sem condições é denunciar a situação a uma televisão, pois quando se dirigiram ao tribunal ou à segurança social estas instituições nada fizeram.
Esta questão dos velhos está a transformar-se, mais do que num problema, numa verdadeira tragédia.
Senão, vejamos: a população está cada vez mais envelhecida, uma vez que as pessoas vivem mais tempo e a natalidade baixou muito.
O Estado, que tem a obrigação de garantir condições dignas de vida a todos os seus cidadãos - ou já não terá?... -, especialmente aos mais desprotegidos, pouco ou nada tem feito por eles.
As pessoas não podem - e também não querem... - tomar conta dos seus velhos. Gostamos muito dos nossos pais - especialmente enquanto eles nos podem ajudar - mas, a partir do momento em que deixam de ser auto-suficientes, é certo e sabido que os pomos num lar.
A sociedade actual - consumista, materialista, imediatista, egoísta e outras palavras acabadas em ista - aprecia mais a imagem do que o conteúdo. Gosta da beleza, da juventude, da alegria... E não da velhice, da doença, da tristeza... Numa palavra, da morte, a que, inevitavelmente, todos estamos condenados desde o momento em que nascemos.
Por isso tendemos a afastar de nós os velhos, colocando-os em lares e indo lá de vez em quando vê-los, em visita de médico. Ou nem isso... E assim, com eles longe dos nossos olhos, a ideia do envelhecimento, da doença e da morte torna-se mais suportável.
Tudo isto é triste.
Especialmente porque se o envelhecimento, a doença e a morte são inevitáveis - a alternativa é morrer novo... -, o mesmo não se pode dizer dos autênticos depósitos de velhos em que, na maioria das vezes sem um mínimo de dignidade, colocamos os nossos velhos.
E a verdade é que há alternativas aos lares. Especialmente aos mais de 3 mil lares clandestinos que continuam a funcionar no nosso país. Por serem mais baratos, as pessoas procuram-nos, porque não têm dinheiro para mais, ou porque, tendo-o, não o querem gastar. Essas pessoas acabam por ser, de alguma forma, cúmplices desta miséria. Porque conhecem as más condições desses lares, ou porque não querem conhecer.
Algumas dessas alternativas são, por exemplo: apoio domiciliário, centros de dia e/ou de noite, edifícios em que as pessoas podem viver no seu próprio apartamento, fazendo as refeições em refeitórios...
Seria, até, uma boa maneira de dar trabalho aos quase novecentos mil desempregados que - oficialmente - Portugal tem.
Mas é claro que, se não o fizemos em tempo de vagas gordas, dificilmente o faremos agora, afogados como estamos pela crise financeira e pelas teorias - e, principalmente, pelas práticas! - neoliberais.
Esperemos então por melhores dias.
Entretanto, os nossos velhotes que se aguentem.
Se isso lhes servir de consolo, também nós seremos velhos um dia...
PS - Um exemplo de uma alternativa "à portuguesa":
Pelo menos 1200 idosos morreram em Lisboa, no ano de 2011, sem assistência médica.
PS - Um exemplo de uma alternativa "à portuguesa":
Pelo menos 1200 idosos morreram em Lisboa, no ano de 2011, sem assistência médica.
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