Mário Soares nunca teve problemas por o seu discurso não ser coerente com a sua prática.
Como ele não se cansa de dizer (e de demonstrar - aqui há coerência...), não há nada que lhe tire o sono.
Muito menos essas minudências.
Pode-se mesmo dizer que, depois do 25 de Abril, o nosso "bochechas" inaugurou a moda (que pegou de estaca) de dizer uma coisa e fazer o seu contrário.
Como se sabe, essa cartilha passou a ser escrupulosamente seguida por todos os governantes que se lhe seguiram.
Porque os políticos acham que só mentindo é que as pessoas votam neles.
Mas a verdade é que a chamada alternância existe em todas as democracias do mundo.
É necessário mudar de governantes de vez em quando, porque os eleitores se cansam deles.
Ou, nas palavras de Eça de Queiroz, os políticos e as fraldas devem ser mudados de vez em quando, pelas mesmas razões.
Na Inglaterra, os partidos usam um esquema para prolongar a sua permanência no poder, que é a substituição do primeiro-ministro.
Mas isso não costuma resultar.
Tem que se mudar de partido, porque essa é a essência da democracia.
Ora mandam uns, ora mandam outros.
Nas ditaturas é que mandam sempre os mesmos.
(Então, porque é que os ricos estão cada vez mais ricos, apesar de os governos serem ora de direita, ora de esquerda, enquanto o povo vai empobrecendo?)
Soares teve toda a vida um discurso de esquerda, às vezes até um tanto ou quanto radical.
São tantos os exemplos que nem vale a pena enumerá-los.
Limito-me, por isso, a enunciar um, o recente conselho a Seguro para rasgar o acordo com a troika.
Além dele, só o PCP ou o BE é que se atreveram a dizer coisa parecida.
Pela simples razão de que são partidos de protesto, não de poder.
Mas se por acaso ganhassem as eleições, não tenho dúvidas de que também não o fariam.
Também eles, inevitavelmente, entrariam no rol dos que dizem uma coisa e fazem outra.
Quanto à prática soarista, relembre-se o socialismo na gaveta, o caso do fax/aeroporto de Macau, a fundação financiada pelo Estado, aquela história obscura dos diamantes de Angola, as centenas (milhares?) de viagens como presidente da República, nomeadamente às Seychelles, ou a arrogância com que gosta de tratar os agentes da autoridade.
Apesar destas incongruências, não se resguarda, intervém sempre que acha oportuno, sujeitando-se às (muitas) críticas.
Consciente de que já alcançou na vida tudo o que podia alcançar, nada teme.
Do alto da sua posição de senador vitalício, sabe que nada de mau lhe pode acontecer.
É, de certa forma, inimputável.
Devemos, por isso, relativizar as suas declarações...
Irónico, não é?
Não o devemos levar a sério porque, estando retirado, ele pode-se dar ao luxo de dizer o que lhe vai na cabeça, sem recear as consequências.
Quanto aos outros, também não os devemos levar a sério porque, estando no activo, dizem o que acham que nós queremos ouvir e fazem depois o contrário.
Desde Durão Barroso, com a desculpa de que "isto" está pior do que eles pensavam.
Mas se não fosse essa, facilmente arranjariam outra.
Porque aldrabar-nos (e roubar-nos) está-lhes na massa do sangue.
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